Você acredita que a overdose de notícias, somada à quantidade excessiva de imagens presente nos diversos meios de comunicação, nos deixa melhor informados e mais aptos a agir no mundo? Ou faz da realidade um “fantástico show da vida?”
ÔNIBUS 174: Suspense em tempo real
No dia 12 de junho de 2000, Sandro Barbosa do Nascimento entrou em um ônibus em pleno bairro da Gávea, na cidade do Rio de Janeiro, para cometer um assalto. Parecia “apenas” mais um assalto. O acontecimento, no entanto, se estendeu por longas cinco horas, 11 pessoas foram mantidas reféns e então passou a ser televisionado ao vivo, tal como um filme de suspense. Esse é o famoso caso do ônibus 174, que inclusive virou filme de cinema.
A maioria dos canais de televisão realizava a cobertura ao vivo do seqüestro do ônibus para os telespectadores. A mídia mostrava passo a passo toda a negociação entre a polícia e Sandro. Havia câmeras por todos os lados em busca do melhor ângulo, repórteres estrategicamente posicionados para obter novas informações ou, simplesmente, transmitir ao público a sensação de atualização. Criou-se assim, uma atmosfera de suspense e expectativa; olhares fixaram-se nas telas aguardando o desfecho da história e por isso a audiência “estourou”.
Quando finalmente Sandro saiu do ônibus acompanhado de uma refém, a mídia se aproximou ainda mais para conseguir a melhor imagem do acontecimento. As câmeras estavam tão próximas que exibiram, ao vivo, a morte da refém.

Para se ter uma ideia de como o caso foi noticiado, o diretor do documentário Ônibus 174, José Padilha, comprou 50 minutos das filmagens que a TV Bandeirantes, a Rede Record e a Globo fizeram. Em arquivo, a Bandeirantes possuía cerca de 40 minutos de gravação, a Record 4 horas e a Globo 20 horas.
Não só a televisão, mas também os jornais impressos utilizaram as imagens para atrair a atenção do leitor. O jornal Folha de S. Paulo, por exemplo, estampou em sua capa diversas fotos do ocorrido. Além disso, fotos do sequestro ficaram disponíveis na Internet.
Restam então as perguntas: como você se sentiu diante das imagens mostradas pela televisão? Você ficou melhor informado? Houve excesso? A cobertura do caso assumiu traços de um filme de suspense?
PARA SABER MAIS:
“O caso Ônibus 174: Entre o documentário e o telejornal”. Uma análise de cobertura, realizada por Leonardo Coelho Rocha, do Centro Universitário de Belo Horizonte.
17 comentários:
Muito boa a análise. Acho que é bem por aí mesmo, o excesso de imagem muitas vezes acaba dramatizando demais uma notícia sem informar de fato sobre determinado assunto abordado.
"ele vai matar GERAL". é.. é bem por aí mesmo.
IM.
a tv se utiliza de todos os tipos de artfícios para manter o telespectador parado diante da tela. porém, tudo isso é feito de uma forma a evitar que o receptor não pense e nem discuta aquilo que vê, apenas sinta...no caso, sinta um medo desesperador capaz de deixá-lo apático.
qualquer espetáculo nos deixa assim. até mesmo o espetáculo da "realidade"
É interessante ver que nada mudou na TV brasileira depois de todos esses anos e depois de tanta discussão sobre o assunto da violência televisionada. Ratinho está de volta, Márcia Goldschimidt e Cristina Rocha dominam as tardes com baixaria e violência (verbal ou não). Crias do finado "Aqui Agora", como "Balança Geral" e "Brasil Urgente" fazem tremendo sucesso nos fins de tarde, um grotesco espetáculo de dor e sangue é apresentado em um reallity show médico na TV Bandeirantes, o programa da Luciana Gimenez é pura baixaria e bizarrice e o que Silvio Santos (e a família da garota) faz com a pequena Maísa é além do inconcebível.
Para completar o circo burlesco e bizarro, Bruno Barreto ainda refilma em película os trágicos acontecimentos do "Ônibus 174". O que é uma pena, mas nada surpreendente se pensarmos que "Carandiru", "Cidade de Deus" e "Tropa de Elite" são sucessos tremendos! Violência nua, crua e pura!
Uma pena que não se gastem mais recursos da indústria pra filmes como "Central do Brasil".
Entretanto, infelizmente não é o que o povo brasileiro quer ver! Continuo batendo na tecla que esse é um problema completo de (falta de) educação.
Que para os padrões brasileiros de política e cidadania, talvez nunca sejam solucionados!
É uma pena, mas sentem em suas poltronas pois o "fantástico (e grotesco) show da vida" já vai começar!
As pessoas quando veem imagens como essas ficam realmente espantadas, a famosa catarse, mas depois viram pra mesa e continuam seu jantar.
A mídia agradeçe pelo acontecido, afinal, audiência é dinheiro.
Acabou o "evento"? Vamos tacar uma menina da janela e gravar, vai dar bastante dinheiro também!
E vai ser sempre assim...
Brilhante texto, brilhante a proposta do blog. Mas é isso mesmo, quanto mais "show" a mídia der em casos como essa, maior será o espetáculo; Vejamos inúmeros casos, por exemplo, Ibsen Pinheiro, Escola Base, Eloá Cristina, Bar Bodega. Ta aí, bons pontos que você pode usar para elaboração de novos textos.
O espetáculo que virou tragédia.Este episódio mostrou nitidamente o despreparo da nossa polícia,estes que deveriam nos proteger,cometem descúidos imperdoáveis.A mídia por sua vez,transforma a tragédia e a dor dos outros em pontos no Ibope,menosprezando as vezes a verdade dos fatos em benefício próprio para a TV,o rádio ou o jornal escrito.Parabenizo quem expos esta discussão,pois assim nos da a oportunidade de opinar e refletir sobre esta proposta.
Achei muito boa a maneira como abordaram a maneira como o jornalismo é feito hoje no Brasil para as grandes massas.Eles despejam a informação ao público, além de ao contrário do imaginamos que deveriam fazer, são um tanto quanto poarciais na maneira de focar a notícia!1
O tema que voocês apresentam aqui ainda pode gerar muita discussão!
Sensacionalismooooo...
Extrapolação;
Impactante;
Apelação!
É importante o jornalismo se utilizar de mecanismos midiátios como imagens e vídeos para melhor ilustrar uma notícia. Claro q tudo deve ser feito de maneira comedida. O Fantástico faz isso de forma agradável misturando jornalismo com entretenimento. Só não concordo quando o entretenimento colocado é vazio demas, como o Big Brother por exemplo. Não tem conexão alguma esse reality com uma revista eletrônica que fala de ciência, fatos do cotidiano e esporte.
Mas, sempre que o jornalismo utilizar atrativos para chamar leitores, de forma ética, será plausvíel.
Então algumas vezes informação de mais é prejudicial...hoje em dia vivemos em um dilema onde temos a famosa doença do século 21 "excesso de informação". Não precisamos ver o sangue escorrer para acreditarmos no que estamos lendo ou vendo...isso não faz com que nos tivessemos a sensação de estar dentro de um filme, pelo contrário, me faz sentir perto de mais da violência.
É revoltante o modo que a mídia aborda as notícias mais dramáticas quando elas ocorrem...
A mídia, no seu papel de veículo de comunicação/informação, deveria somente informar seus receptores sobre os acontecimentos que apresentem um conteúdo que pode ser relevante ao cotidiano de receptor.
Agora vem a pergunta: É realmente necessária a exploração tão intensa do caso de seqüestro de um ônibus, ou o simples fato de uma emissora ter televisionado primeiro o "acontecimento", foi o estopim para que diversas outras mídias comparecessem ao local para "ganhar a audiência" da emissora concorrente?
Será que o desfecho desse caso não poderia ter sido outro, caso a mídia não estivesse "enfatizando tanto o caso"? Quero dizer, é muito comum que os casos de seqüestro, em que a mídia (em especial a televisão) "acompanha" o caso, terminem de forma drástica. Acredito que isso se deve, basicamente, pelo fato de o sequestrador tentar se aproveitar da situação e extrapolar em suas exigências durante a negociação, ou pelo fato do sequestrador ficar nervoso devido a grande exposição e acabar agindo de forma (mais) desordenada.
Uma outra coisa que geralmente ocorre nestes casos, é a mídia "expor" as táticas que serão utilizadas pela polícia, "dando de bandeja" ao sequestrador, as rotas de fuga.
A mídia informa, mas muitas vezes os fatos e as pessoas erradas.
Infelizmente a desgraça se transforma num show de televisão onde as pessoas vendo estas cenas se conformam com a vida que estão levando, e que por aí existem outras pessoas em situações piores e a para o canal de comunicação dá audiência de hibope.
Eu acho que eh necessario que haja um meio termo....
nao adianta fazer programas soh de entretenimento... nem soh informativos... senao ficam vazios e chatos respectivamente...
acho que equilibrio eh a palavra chave mais uma vez!!!
Alem da habitaul responsabilidade
Então, eu acredito que não. O excesso de imagens na mídia acaba nos confundindo ao invés de nos ajudar. Claro que é importante mostrar imagens, afinal elas nos aulixiam para que tenhamos uma ideia do que realmente está sendo noticiado, mas daí só passar as mesmas imagens, cada vez tentando procurar mais detalhes aonde não tem....Já é demais!
Não acho também que pelo fato de ter imagens, ficamos mais informados e aptos pra agir no mundo. Há outras formas de se informar, como o rádio por exemplo, que não tem imagem mas é tão eficiente como.
Penso que cada um escolhe o meio de comunicação que mais se identifica para se informar sobre os acontecimentos, mas acabo sentindo uma certa banalização nestas exibições pela TV. Sinto que estas imagens acabam anestesiando o sentimento. O choque se dá no princípio, logo em seguida nos vemos esperando o próximo acontecimento e o fato anterior, torna-se estatística.
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